terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sexta, dia 6.01

A programação \rua dessa terceira semana foi prejudicada momentaneamente pela chuva, o que acabou cancelando a “Terceira Reunião Pública para Assuntos Privados”. 

Após a chuva, os artistas residentes realizaram a ação “Pausa é Para Ousar”, ideia coletiva surgida a partir de uma experiência vivida por Renato Negrão durante a atividade com o Marcelino Peixoto, do Coletivo Xepa. Negrão comentou que, em um dos momentos da ação na quarta-feira, havia relaxado muito quando se deitou no chão com um tijolo Xepa. Naquele momento, pensou por que não poderia fazer isso com mais liberdade e frequência em sua vivência da cidade. Segundo Guilherme, a primeira ideia de “Pausa é Para Ousar” era criar um spa na rua, onde as pessoas poderiam ir para fazer as unhas, cortar o cabelo, receber massagem etc. Depois foi considerado que o tema de “beleza” reduziria muito o assunto da ação. E foi pensado então em criar um espaço na rua em que as pessoas poderiam ir e ficar, um lugar de pausa no espaço urbano. “E a gente então achou que a pausa já era um tema, um tema mais aberto do que o tema de beleza. Isso se juntou com um desejo da Ana Luisa e do Jonata que queriam fazer um momento praia na galeria”.


Sexta foi também o dia de receber e instalar a faixa de grama na entrada da galeria e dia de resenha na galeria. E de fazer resenha.







Fotos: Luiza Palhares

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Disseminário _Thereza Portes

No \disseminário da terceira semana de \perfura, a professora e artista Thereza Portes apresentou histórias e trabalhos que desenvolve em seu Instituto Undió, organização não governamental premiada pela Unicef que trabalha desenvolvimento humano através da arte, localizada na rua Padre Belchior, no centro de Belo Horizonte, em região próxima ao Sesc Palladium. Fundado em 1982, o Instituto trabalha com arte e educação para jovens e adolescentes.

Foto: Luiza Palhares



Provocação _Coletivo Xepa

Marcelino Peixoto, do Coletivo Xepa, foi o artista provocador desta terceira semana de \perfura.

Ele começou sua fala na quarta, dia 4.01, referenciando o uso de objetos como materiais de performances e trabalhou com a relação entre desenho, objetos e performance – tanto a partir de ações históricas da performance, como Yoko Ono, Joseph Beuys e Marina Abramovic, quanto a partir de diversos trabalhos do Coletivo Xepa. A relação do desenho com a performance vem desde o projetar/desenhar a ação e traçar imagens do trabalho quanto desenhar os objetos que fizeram parte da performance. No caso de Yoko, Beuys e Abramovic, Marcelino destacou o uso recorrente de certos objetos como tesoura, chapéu, terno e cajado e facas – respectivamente. Quanto aos objetos comuns frequentemente utilizados pelo Xepa, há tijolos, baldes, latões, ferro de passar e pano de chão.

A conversa de Marcelino com o público foi generosa, compassiva e contemplativa. Aos poucos, trazia os objetos para o centro da conversa e no projetor mostrava os trabalhos de performance na rua do Xepa, compartilhando um pouco sobre o processo de criação e a experiência de realizá-los.

As ações de intervenção urbana do Xepa têm uma característica de repetição e obstinação, de manter em curso uma ação até seu desmoronamento ou esvaziamento, como é o caso da ação de construir um muro ou uma coluna de tijolos até que, pelo próprio desequilíbrio, desabem. Num outro trabalho, ele e Viviane Gandra enxugam, com pequenos panos de chão grandes pedras de gelo, o que levava em média 8 horas para derreter. A ação consistia em enxugar o gelo e torcer o pano num balde até que enchesse, esvaziar o balde e recomeçar.

Marcelino também convidou os presentes a realizarem uma ação na rua Rio de Janeiro, portanto os "objetos Xepa". Em seguida, numa conversa aberta, abordou a experiência de cada um sobre a ação na rua e comentou sobre a relação entre arte e público em espaço não preparados.








Foto: Luiza Palhares

Conversas ensaístas _Julia Panadés e Graziela Andrade

Julia Panadés e Graziela Andrade dividiram a noite de terça-feira, dia 3.01, conduzindo o \conversas ensaístas. Julia e Graziela trouxeram os materiais artísticos com que trabalham com frequência: as linhas, agulhas e tecidos vermelhos (e tons avermelhados) de Julia e o plástico bolha de Graziela. 

Julia preparou um texto sobre a proposta ensaísta e convidou os artistas e público presente a intervir e a tecer no espaço – com o corpo, com movimentos, com palavras, agulhas e linhas. 

"Ensaio se parece primeiramente com a junção das entradas e saídas. En-saio", começou Julia compartilhando texto que preparou para a ação. "Entro trazendo de saída o poeta ensaísta e marujeiro da lua Wally Salomão, do livro 'Pescados Vivos', de 2004. É um texto que chama Vazies inaudito. Começa com uma conjugação assim: 'avidez, aridez, avidez, aridez, avidez, aridez, vazies. Aprendi nos meus intensos diálogos com ele [Hélio Oiticica], que a vazies era uma das qualidades mais desejáveis para um artista". 

Referenciando Wally que falava de Oiticica, Panadés comentou sobre a necessidade de o artista abandonar o já feito, correr risco para além do já conquistado ou adquirido. "O artista deve suspender a cadeia fordiana de produção para deixar vir o surpreendente, o impensado, o imprevisível, a vazies. Basta introduzir no universo da plenitude das coisas fissuras".









Foto: Luiza Palhares

Ativação corporal _Thembi Rosa

A terceira semana de \perfura contou com a participação de Thembi Rosa como artista da ativação corporal na terça e quinta-feira, dias 3 e 5 de janeiro.

Abrindo o dia com alongamentos para despertar e abrir espaços internos no corpo, Thembi trouxe atividades desenvolvidas a partir de dois trabalhos seus, realizado em parceria com outros artistas e dançarinos. A atividade de terça aconteceu com bambus, material que surgiu de seu trabalho "Parquear", em colaboração com Margô Assis e Renata Ferreira, que juntas forma o coletivo Dança Multiplex. A atividade, algumas vezes bastante meditativa, outras, mais dinâmica, desdobrou-se de uma ação chamada "Parquear Bando", realizado durante o FID 2015, em que diversos dançarinos e artistas foram convidados a fazer uma intervenção urbana em que andavam pelas ruas equilibrando os bambus no topo da cabeça. Para Thembi, o bambu – material que surgiu a partir do contato com o Parque Mangabeiras (daí a razão do título do trabalho) – surge como dispositivo de desaceleração temporal, capaz de fomentar um estado mais meditativo e suscitar uma abertura dos participantes ao espaço e tempo presentes.

Na quinta-feira, Thembi compartilhou o trabalho "Cada começo é só uma continuação", que desenvolve com o programador Manuel Guerra. Nele, o programador construiu um dispositivo que responde aos movimentos dos dançarinos, compondo uma trilha sonora improvisada que tem como base arquivos sonoros de jazz. Nesse trabalho, diz Thembi, a trilha joga com as ideias de delay, imprecisão e afinação entre movimento e som.




Fotos: Luiza Palhares

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Terceira semana _o retorno

Chegamos às terceira e quarta semanas de \perfura vindos de duas semanas de descanso/recesso para fechar, de alguma forma, o ano turbulento de 2016. 

Como ateliê de performance, dessa linguagem poética tão imiscuída na vida, parece impossível não sentir na pele e trazer para a ação os afetos, o sensível e as questões que nos afetaram e provocaram tanto ao longo de ano passado. Como galeria aberta de um ateliê de performance, parece também impossível nos situarmos alheios aos movimentos introspectivos e coletivos de transformação.
Pode ser que as sutilezas não sejam percebidas a olho nu, ou compartilhadas verbalmente, mas como corpos perfuráveis, sensíveis e presentes estamos disponíveis e suscetíveis a sermos catalisadores de inúmeros processos – individuais e coletivos. Muitas vezes de uma forma que nem somos capazes de trazer a consciência, mas o fluxo dos processos passa por nós. Sentimos as provocações, as efervescências, as erupções. Por isso, talvez, o ateliê venha se configurando como esse espaço de trocas, sobretudo, de muito diálogo e muita abertura. Para descobrirmos juntos – verbal e corporalmente – algo que nos afeta, e que individualmente sentimos uma maior demora na descoberta. Sem isolamentos, aceleramos as digestões e as propulsões de criações, transformações e abandono do que não nos serve mais. E se este tem sido um espaço de trocas, para haver uma boa comunicação, um bom compartilhamento de experiência, nada mais imprescindível do que confiança. Pois nos sentimos escutados quando estabelecemos laços de confiança. Posso pisar aqui? Posso me abrir? Posso compartilhar uma dúvida, um incomodo, um “não sei bem o que é”? E como se abrir num espaço tão poroso, perfurado e perfurável? Você tem coragem?
É preciso coragem para se transformar. É preciso coragem para se deixar ao fluxo do tempo, decantar, se abrir ao desconhecido e fluir junto – amorosamente. Fluimos no fluxo do amor quando somos coletivamente.
Conseguimos fazer isso num ateliê aberto de performance?
Somos confrontamos constantemente a realizar a proposta. Estar presente, escutar, se abrir e ser atravessado, perfurado, afetado por inúmeros trânsitos de pessoas, percepções, universos, modos diversos de ser e estar no mundo.
A proposta, me parece, é compartilhar com afetuosidade. A fim de gerar esse senso de coletividade tão imprescindível nos dias de hoje. Numa época em que vivemos a insurgência de facismos de diversas facetas, criar um ser coletivo de amorosidade artística e criativa é um gesto de coragem e também de generosidade. Consigo – com as sombras desconhecidas – e com todos: reconhecer que somos todos luz e sombra. Faz parte do fato de ter volume e ser finito.