terça-feira, 20 de dezembro de 2016

\rua _Black Friday, com Ana Luisa Santos

Na programação \rua de sexta-feira, dia 16, Ana Luisa Santos realizou o trabalho Black Friday, na esquina da rua Rio de Janeiro com Augusto de Lima. Em referência ao dia de megapromoções estadunidense, que acontece em seguida ao Dia de Ação de Graças, Ana tingiu notas de dinheiro com spray preto e ateou fogo às notas com isqueiro. Vandalismo consumista de queima de dinheiro e excesso desnecessário de coisas – chamadas “bens materiais” – a nos rodear.









Fotos: Luiza Palhares

domingo, 18 de dezembro de 2016

Disseminário _Nina Caetano

No \disseminário da segunda semana de \perfura, a performer, professora e pesquisadora Nina Caetano apresentou a ação “Espaço de silêncio”, em que referencia atos de violência contra mulheres.

Na ação, Nina, com uma cruz vermelha sobre a boca, estende um lençol branco no chão e sobre ele desenha inúmeras cruzes vermelhas. Próximo às cruzes, Nina acrescenta nomes de mulheres mortas por maridos, companheiros ou namorados. Junto aos nomes, acrescenta informações de forma a individualizar a violência, dar uma voz, um corpo, uma identidade – para além da abstração de um número cada vez mais elevado de mulheres mortas diária e anualmente no país. Nome, idade, profissão, onde foi morta, como foi morte e quem a matou.

“É uma ação longa que tem chegado até 7 horas. Normalmente a primeira cruz que eu desenho traz informações sobre uma mulher morta naquele espaço em que estou fazendo a ação. Por exemplo, em Ouro Preto, comecei com o caso da Débora Souza”, explica em entrevista ao blog do ateliê. “Nesse ritual silencioso com que traço o meu legado de injustiças, cada etiqueta se transmuta em uma espécie de lápide, construindo ‘um cemitério simbólico’. Meu olhar é duro, não há condescendência. Pois cada um de nós precisa se haver com nossa parcela de responsabilidade por estar no mundo”, disse durante sua fala no \disseminário.

Nina conta que a ação começou muito como forma de manifestar sua própria indignação e revolta com a morte de tantas mulheres assim como o silenciamento e invisibilidade dessas vítimas. Ao mesmo tempo, Nina sente que a ação tem adquirido uma dimensão coletiva, na medida em que outras mulheres a procuram para relatar casos próximos de familiares ou conhecidas mortas pelos maridos ou companheiros. No centro da ação, Nina disponibiliza uma carta manifesto, que pode ser lida por quem se aproxima.

Perguntei a Nina se ela considerava que ao mesmo tempo que a ação se chama “Espaço de silêncio” ela traz muita visibilidade e voz para casos que são esquecidos e/ou nunca julgados. A performer concordou e destacou também as diversas camadas de silêncio do trabalho, como o silenciamento interno necessário à recepção do público, ao seu próprio silêncio (uma vez que ela mantém a boca fechada por uma cruz vermelha durante toda a ação) e o silêncio necessário a uma ação de longa duração.

Confira a seguir a Carta Manifesto




“Mulher, performance e violência”
por Nina Caetano

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.

Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher rosa. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher doce dócil muda. Mulher morta. Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Depiladores hidratantes sutiãs pregadores talheres vassoura gleidy sachê escova progressiva inteligente. Silicone. Peito. Bunda. Coxa. 100% completa. Como você gosta. Pronta para consumo imediato. Sarada. Turbinada. Preparada. Plastificada. Espancada. Esquartejada. Morta. Jogada pros cachorros. na lagoa. no lixo.

Como você gosta?

Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.

Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. A mulher em relação ao marido. Esposa. Casar. Amar e respeitar até que a morte os separe. Cuidar. Cozinhar. Limpar. Lavar. Passar. Sujeitar. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade.

Mesmo sem vontade apanhar. Compreender. Apanhar. Perdoar. Apanhar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. Destruir. Dar cabo de. Aniquilar. Ex-terminar. A cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus (ex) namorados, noivos, maridos. 10% desses homens são agentes da segurança pública. Amar e proteger. Conceição de Maria, 43 anos. Morta a socos pelo marido, policial militar reformado. Osailda, 45 anos, morta por envenenamento. O marido segue em liberdade, assim como o assassino de Débora Souza, 20 anos, atendente do Maria Bonita de Ouro Preto. Também em Ouro Preto, Amanda Linhares, 17 anos, foi ex-terminada pelo ex-namorado, delegado de polícia da cidade. Fernanda Sante Limeira, 35 anos. O ex-marido apontou a arma e atirou 4 vezes, sem que ela pudesse reagir. Em Corinto, cidade em que minha mãe foi sistematicamente espancada pelo meu pai sem que ninguém metesse a colher, Júlia, uma senhora de 80 anos, foi morta pelo marido. No Sul, Natália, 16 anos, grávida de 3 meses, foi morta pelo namorado com pelo menos 80 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.











Fotos: Luiza Palhares

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Provocador _Marta Neves

Na quarta, dia 14.12, Marta Neves apresentou a performance "Bigfral Comfort" sobre os processos burocráticos, exaustivos e exasperantes de monitoramento e avaliação de projetos, na constante comparação controlada entre o real e o idealizado. Marta leu um texto produzido a partir de colagens de fontes diversas com ajustes e adaptações da artista.

Enquanto lia texto de monitoriamento e avaliação, Marta se deitava no colchão de ar e trocava constantemente de fralda geriátrica, com direito a talquinho e lenços umedicidos.

Após apresentação de sua fala performática, Marta conversou com os artistas e público presente sobre a potência do humor que debocha seriamente sobre o trágico cotidiano. A artista também lembrou de uma frase de Marcelino Freire de que o artista cria para vingar da vida e das estruturas sociais, como um modo para se libertar das pressões cotidianas e institucionais. "A vingança do artista é criar", resumiu. Ana Luisa lembrou uma frase de Dudude Herrmann e Marcelo Kraiser: "Se não pode rir não é sério". Ana também lembrou que não se trata de uma risada frouxa, mas de um riso que cria brechas, que critica e faz pensar; rir do terrível como modo de criar saídas.

Uma conversa muito potente que terminou em festa no ateliê.

Confira abaixo trechos do texto lido










BIGFRAL COMFORT
por Marta Neves

"O discurso estratégico tende a instigar o ideal da conquista e otimizar os recursos existentes em prol de qualidade, inovação e sustentabilidade para dar visibilidade à instituição para promoção de sua imagem externa.

A gestão de recursos visa ao aprimoramento dos processos visando atender aos interesses dos pares de determinado setor.

Nessa direção pontuamos que faz parte do discurso oficial que pensemos nossas ações a partir dessas macrodiretrizes. Essa é uma orientação macropiramidal.

Uma preocupação intensiva é com o monitoramento e a avaliação.

O processo de monitoramento e avaliação constitui um instrumento para assegurar a interação entre o planejamento e a execução, possibilitando a correção e a retroalimentação permanente de todo o processo de planejamento.

O monitoramento se diferencia qualitativamente de um simples acompanhamento, pois além de documentar sistematicamente o processo, identifica os desvios na execução das atividades propostas fornecendo as ferramentas para a avaliação.

Já a avaliação possibilita a implantação de ações corretivas para ajuste ou re-planejamento das atividades do monitoramento.

(...)

Para que o processo de monitoramento e avaliação se estabeleça e se consolide é preciso o investimento em muito trabalho organizativo, com responsabilidade compartilhada entre o gestor, equipes de apoio designadas pelas instituições gestoras e o Conselho Consultivo.

O primeiro passo é responder à pergunta básica do trabalho: Que resultados foram alcançados?

No caso deste plano, esta resposta advém da comparação entre a situação real e a situação ideal planejada por meio da coleta de insumos relacionados aos indicadores. Para isso, vale destacar, contribui fortemente o georreferenciamento.

O georreferenciamento começa a ser desenvolvido mapeando-se toda a rede de variáveis do banco de dados. Isso gera um índice, denominado índice de vocação à sociedade externa. Os índices, por sua vez, compõem-se de fatores de gestão, fatores estratégicos e fatores institucionais, considerados de mesma importância numa média ponderada.

Quanto aos indicadores, sua formulação é sempre muito importante nos processos de planejamento e consiste numa tarefa particularmente complexa.

A perspectiva de sucesso integral para a medição dos indicadores é, de certa forma, pretensiosa. Um fator preponderante é “como coletar as informações fornecidas pelo indicador”, ou seja, a escolha acertada das fontes de verificação é que irá determinar a factibilidade da comparação entre a situação real e a situação ideal planejada.

As fontes de verificação são os documentos, locais ou elementos que subsidiam com informações a avaliação da evolução de cada indicador.

Por outro lado, a sistematização dos efeitos dos processos institucionais não visa ao fiel cumprimento das formas aqui previstas, mas ao atingimento das finalidades de cada ato e do processo como um todo. Contudo vale lembrar a interdependência e a unidade teleológica dos planos estratégicos. E embora o monitoramento e a avaliação nos subsidiem com as diferenças entre o planejado e o executado, essas diferenças entre o real e o imaginado não se aplicam ao todo aqui descrito".


Fotos: Luiza Palhares

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Conversa Ensaísta _Marcelo Kraiser

Marcelo Kraiser dividiu a noite de terça-feira, dia 13.12, com Elisa Belém como propositor de conversas ensaístas. Kraiser conta que pensou no termo ensaio no sentido de experimentação, de teste, como trabalho de por a prova o que foi pensado ou projetado. Como projetista de objetos sonoros, Kraiser preparou uma mesa com objetos sonoros e uma plataforma instável com molas, sobre a qual a performer Ludmilla Ramalho improvisou movimentos corporais. Guilherme Morais e Renato Negrão, artistas residentes do perfura, também subiram na plataforma para improvisar sons e movimentos. 

Confira vídeo de parte da ação 








Conversa Ensaísta _Elisa Belém

Elisa Belém abriu seu ensaio lembrando que em 13 de dezembro de 1968 foi instituído o Ato Institucional 5 (AI5), um marco da ditadura militar no Brasil, e defendeu a necessidade de discutirmos as relações entre arte, percepção sensível e ação política num dia em que a PEC 55 foi aprovada. Destacou, sobretudo, a importância de falar sobre arte e discutir questões política e sensível em momentos tão duros da história do Brasil. "É preciso pensar novas formas de agir, novas formas de pensar. O perfura pode se mostrar como um ótimo espaço de articulação política nesse momento histórico", afirmou.

Logo no começo da sua fala, em que relembrava os efeitos da ditadura sobre o silenciamento subjetivo de gerações de brasileiros, a manifestação contra a PEC 55 e o (des)governo Temer passava pela avenida Augusto de Lima. Sua fala foi momentaneamente interrompida para que os presentes pudessem acompanhar pela janela os protestos que passavam em frente ao Sesc Palladium.

"Vivemos um momento em que atos que retiram a potência de vida e a potência de alegria das pessoas. É preciso um trabalho em dobro para que, mesmo nesse momento de turbulência, possamos gerar encontros de potência de vida e de alegria para que as perdas não nos atinjam tão de frente", disse.



Fotos: Luiza Palhares


Ativação Corporal _Raquel Pires

Na segunda semana de \perfura _ateliê de performance, Raquel Pires conduziu as atividades de ativação corporal nas manhãs de terça e quinta-feira, dias 13 e 15 de dezembro, compartilhando conhecimentos em torno da técnica de Alexander.

Trabalhando o movimento em prol de desfazer as interferências que nós mesmos fazemos sobre a maleabilidade dos músculos, articulações e movimentos, a atividade foi conduzida no sentido de reconhecer as pressões que nós mesmos colocamos sobre as diversas partes do corpo, voltando a atenção para as pressões que o impedem de expandir.

Desta forma, os artistas presentes fizeram exercícios em dupla, com o chão e a parede a fim de explorar a experiência de deixar-se, "deixar-se sozinho", "deixar-se em paz", relações com o espaço, com a direção consciente do movimento, com a tensão investida no músculo, e o tônus que se coloca na presença em cada momento.







Fotos: Luiza Palhares

Segunda semana _começo

Entramos na segunda semana de \perfura com o entusiasmo de que muita coisa ainda vem por aí. Estamos apenas no começo. Semana 2 de 7.

A primeira semana foram dias de começos, de ativar, de ocupar, de estar presente e testar possibilidades, observar encontros, contemplar forças de energia, vigiar inúmeros movimentos e potencias.

A pergunta “o que esse espaço pode ser?”  está sempre presente. E a cada dia, a cada atividade e ação, a resposta se configura de uma forma distinta, trazendo as tintas de quem por aqui passa. Cada um deixa um pouco de si, leva um pouco de nós. Vamos aos poucos configurando esse ser coletivo de um espaço amorfo em que tudo pode ser nessa tangência entre arte e vida que é a performance. Catalisando energias múltiplas para a experiência, algumas vezes para o ritual, outras para a contemplação, a soltura e uma cura sútil, atuando no campo da percepção sensível.


Não é a toa que Zumthor dizia que a forma (estética ou poética) se dá no encontro irrepetível e irreprodutível de um aqui agora vivido em copresença. É da performance esse ser do encontro. Ser o encontro.

Foto: Luiza Palhares