domingo, 22 de janeiro de 2017

O tempo da escuta

Não é curioso que a gente diga: “preciso parar para pensar”? Para sentir a gente não para. Ao mesmo tempo, quando meditamos, temos a ilusão de que paramos de pensar, mas, no fundo, quando meditamos, o que a gente quer não é parar de pensar, mas observar o próprio pensamento.

Eu paro para pensar. Apesar de o pensamento nunca parar. Assim como a sensação e os afetos não param. Esse corpo máquina é um corpo de estímulos. De inputs e outputs, trocas constantes. A gente quer parar – para repensar, absorver, digerir, para desacelerar, para administrar os excessos, para viver mais serenamente. Queremos parar para contemplar e observar o próprio pensamento andar no ritmo de quem revive, reobserva, reabsorve, digere. No ritmo de quem não é máquina, mas natureza. O que a boca mastiga, o estômago recebe, e o intestino tem ainda a chance de absorver. Nada é completamente novo, nada é completamente redundante. Mas a síntese de cada instante pode ser. No tempo de quem digere com parcimônia o que lhe atravessa.

Foto: Luiza Palhares

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